Nomeando e registando nomes dos changana e ronga no sul de Moçambique colonial
Naming and registering Changana and Ronga names in colonial southern Mozambique
Palavras-chave:
Nomear, Registrar, Antropónimos, Sul De Moçambique, ColonialResumo
A colonização no território que veio a se tornar no moderno Moçambique pôs em contato os portugueses e os africanos de origem Bantu com diferenças assinaláveis do ponto de vista linguístico, cultural e histórico. Esta diferença se refletiu, em parte, nos esforços de adaptação fonológica e no uso de corruptelas tanto pelos portugueses como também pelos moçambicanos. O objeto deste artigo são os antropónimos dos machanga e maronga, ambos pertencentes ao grupo etnolinguístico Tsonga, do sul de Moçambique no período colonial. O objetivo é contribuir na compreensão da forma como o colonialismo impactou nos antropónimos em questão. Sustento que o advento do colonialismo implicou a imposição de nomes portugueses e que esta imposição levou à coexistência de dois nomes, por um lado o nome africano e, por outro lado, o nome português. Este processo foi violento e autoritário tendo contribuído para apagar os antropónimos que refletiam a cultura e história africanas pois os moçambicanos foram forçados a abandonar as suas referências a favor das referências do colonizador. E, na sequência de agência e engajamento estratégico dos moçambicanos face às imposições da administração colonial, defendo que alguns moçambicanos no Sul desenvolveram estratégias para preservar os nomes, de seus familiares e de antepassados no registro.
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Colonisation in the territory that became modern Mozambique brought the Portuguese and Africans of Bantu origin into contact with marked differences from a linguistic, cultural and historical point of view. This difference was partly reflected in the efforts to adapt phonology and the use of corruptions by both the Portuguese and Mozambicans. The subject of this article is the anthroponyms of machanga and maronga, both belonging to the Tsonga ethnolinguistic group in southern Mozambique during the colonial period. The aim is to help understand how colonialism impacted on the anthroponyms in question. I argue that the advent of colonialism implied the imposition of Portuguese names and that this imposition led to the coexistence of two names, on the one hand the African name and, on the other, the Portuguese name. This process was violent and authoritarian and helped to erase the anthroponyms that reflected African culture and history, as Mozambicans were forced to abandon their references in favour of those of the coloniser. And, following the agency and strategic engagement of Mozambicans in the face of the impositions of the colonial administration, I argue that some Mozambicans in the South developed strategies to preserve the names of their relatives and ancestors in the register.
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